Milícia esperou eleição passar para invadir favela e não prejudicar seus candidatos, diz promotor

Durante o período de campanha eleitoral, Santa Cruz, bairro da Zona Oeste do Rio, viveu momentos de tranquilidade – algo raro na região, mergulhada numa guerra entre milicianos e traficantes. O último grande embate pelo controle de favelas da região havia sido em 28 de julho. Para o promotor Luiz Antonio Ayres, do Ministério Público estadual, as eleições e a interrupção dos ataques estão conectadas.

“Eles [os milicianos] não fizeram nada durante o período de campanha para não prejudicar os seus candidatos, para não chamar atenção para aquela área. Acabou a campanha às eleições proporcionais, eles vão com tudo para cima”, afirmou o promotor.

 

Responsável por investigar a milícia que domina 99% das favelas de Santa Cruz, Ayres acredita que a volta dos conflitos na região tem ligação direta com a busca de milicianos pelo controle da Favela de Antares, a única que ainda está sob domínio de traficantes de drogas.

O último tiroteio ocorreu no início desta semana, entre o fim da noite de domingo (7) e a madrugada de segunda-feira (8). A troca de tiros aconteceu horas depois de encerrada a apuração dos votos, o que para o promotor não se trata apenas de coincidência.

Ainda no fim de julho, milicianos perderam a batalha travada com traficantes. Um dia após a checagem dos votos, porém, a quadrilha que já tem o domínio das favelas do Rola/Rodo, voltaria a atacar traficantes que estão em Antares.

Ayres avalia que dominação de todo um bairro é fundamental para o processo de expansão territorial da milícia na região.

Segundo levantamento feito pelo G1 em março, com dados de Secretaria de Segurança, Polícia Civil e Ministério Público, existem 2 milhões de pessoas vivendo em áreas sob influência direta das milícias na capital e Região Metropolitana do Rio.

O promotor detalha que várias das principais comunidades de Santa Cruz, que há dez anos eram dominadas pelo tráfico, hoje vivem sob o mando de milicianos. Algumas delas são: Cesarão, Três Pontes, Jesuítas, Manguariba, Palmares e Urucânia.

“Em princípio, seria a consolidação da tomada de todo um bairro. Santa Cruz vai ser um lugar muito emblemático para eles continuarem essa política de expansão. Se é possível em Santa Cruz, onde o Comando Vermelho sempre foi muito forte, então é possível fazer em outros lugares”, prevê o promotor.

 

Maior milícia do Rio

 

Para o promotor, a ânsia do grupo para controlar Antares demonstra o empenho e a importância da região para a quadrilha de milicianos.

Há anos, a favela é base da maior facção de traficantes do Rio na região. É uma espécie de entreposto para receber e distribuir drogas para diferentes pontos do RJ, segundo policiais.

Na segunda-feira (8), imagens imagens registradas pelo Globocop flagraram o confronto entre milicianos e traficantes na região. Os conflitos ocorreram próximo à Avenida Cesário de Melo. A filmagem revelou milicianos se movimentando armados de fuzis e com coletes à prova de balas.

“Ao que tudo indica, foi uma tentativa de a milícia tomar o território de Antares. O tráfico não teria estrutura para fazer isso. A expectativa continua: eles vão tentar novamente tomar de vez Antares, que é a última que falta, e acredito que essas cenas lamentáveis vão se repetir ao longo deste mês”, disse Ayres.

Na primeira invasão à Favela do Rola, hoje chamada pelos grupos de milicianos de favela do Rodo, no final de julho, quatro policiais foram presos e identificados em fotos que mostravam agentes circulando com homens com roupas parecidas com as da Polícia Militar.

Agora, a Corregedoria da Polícia Militar tenta identificar outros possíveis envolvidos com a milícia da região.